Assim que meu pai chegou em casa, peguei o carro dele e fui para o
shopping. Eu e Pérola sempre nos encontrávamos no Tanzini's. A loja
vende malhas, meias-calças e sapatilhas para bailarinas. No último
inverno, Pérola me convenceu a experimentar um minúsculo collant.
- Querida, como você é forte! - comentou a vendedora naquele dia. De
fato, ao lado de Pérola, parece que eu sou o bailarino que tem a função
de levantar a parceira.
Quando cheguei, avistei Pérola em pé no meio da loja, parecendo bastante
indecisa. Ela nem percebeu a minha chegada, estava muito preocupada
para notar que eu a estava seguindo em direção ao balcão.
- Eu gostaria de trocá-las, por favor - ela disse com uma voz rouca.
- Trocá-las?! - disparei. - Por quê?
Ela e a vendedora viraram-se rapidamente. Os olhos de Pérola se
arregalaram de surpresa e suas bochechas chegaram a ficar vermelhas.
- Quer dizer... Pérola, nós gastamos duas horas aqui semana passada escolhendo essas malhas.
Ela confirmou com a cabeça e desviou o olhar.
- Eu sei - disse baixinho. - Mas quando vou poder usá-las?
- Quando você dançar.
- Eu não consegui - ela disse, ainda sem me olhar.
- Não conseguiu... a companhia Krapov? - senti um aperto no coração. Eu
sabia quanto ela queria entrar para aquela companhia de dança.
Ela baixou os olhos e se virou para o balcão.
- Queria trocá-las - disse para a vendedora.
- Desculpe, mas ela não vai trocar nada - interrompi, retirando as
malhas da mão da mulher. - Escute, Pérola, você ainda vai precisar
delas. Você não vai parar de dançar.
Seus dedos se enroscaram em uma mecha dos cabelos castanhos.
- Eu não sou boa suficiente. Tenho de aceitar isso - disse e pegou a sacola de novo. - Eu gostaria de trocar...
- Obrigada - impedi, puxando a sacola. - Mas acho que ela não vai trocar.
- Bem, quando vocês duas se decidirem, me avisem - a vendedora resmungou e se afastou.
Agarrei o ombro de Pérola e a empurrei para fora da loja em direção à
praça de alimentação. Andamos em silêncio. Toda vez que eu olhava para o
lado, ela estava piscando os olhos que não paravam de se encher de
lágrimas. Entrar para a Krapov era o sonho de sua vida e ela, desde o
verão passado, vinha se preparando para isso. Eu só esperava conseguir
dizer as coisas certas naquele momento.
- Pérola, eu vejo você dançar há dez anos - disse depois que já
estávamos sentadas, atacando um calzone. - Você é uma bailarina
incrivelmente talentosa. Você é boa o suficiente. Acredite em mim.
- Mas você sempre me disse que não entendia nada de balé - lembrou ela.
Continua.....

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