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sábado, 18 de agosto de 2012

[FIC] Mentiras e Segredos 15º e 16º Capitulo


Lua e Arthur!!!! 

(Arthur)

O que tinha ouvido na casa da Lua martelava-me o cérebro no caminho até casa. Na verdade, eu tinha-me afastado completamente de tudo o que fossem noticias do Brasil, especialmente depois de me aperceber que o caso da Lua e do André tinha chegado á imprensa. A última coisa que eu queria na altura era ter notícias deles.

Mas agora, pela primeira vez, começava a arrepender-me de não ter estado mais atento...e a associar peças da história que eu tinha perdido e que me tinham atirado aqui e ali...o afastamento da Lua que o Bernardo tinha mencionado...o escândalo do qual o Mica falou...o pouco que toda a gente tinha a dizer sobre os últimos anos da Lua quando se falava de novidades...a própria mudança tão radical da Lua...

Tinha uma data de coisas ás voltas na cabeça e encostei o carro. Precisava que alguém me contasse essa história do principio ao fim...e tinha bom-senso suficiente para perceber que essa pessoa não seria a Lua, pelo menos não agora.

Liguei para a Sophia, rezando para que ela atendesse. Tinha-as visto juntas no dia da reunião e hoje no refeitório durante o almoço...parecia-me ser uma das poucas pessoas com quem a Lua falava no estúdio.

“Sim?...”

“Alô Sophia...é o Arthur. Arthur Aguiar...”

“Ah! Arthur! Claro! O que se passa?”

Eu não sabia bem como continuar...

“Sophia...eu precisava de falar sobre a Lua...”, estava hesitante... não fazia ideia de qual a reacção da Sophia. O silêncio do outro lado da linha não ajudou...

“Eu estive com ela agora, mas...eu preciso mesmo de falar com alguém, Sophia...”, se eu soasse metade do confuso que me sentia ela tinha de me ouvir... “Pelo que percebi a Lua não parece ter muitos amigos próximos no estúdio...”

Senti um suspiro do outro lado.

“Arthur...desculpa a sinceridade, mas depois de tudo... eu acho que o melhor seria deixares a Lua paz...”

“A questão é essa, Sophia. Eu não sei o que é esse tudo. E preciso de alguém que me conte.”

Não fiquei com certeza se a Sophia acreditou ou não em mim...mas pelo menos aceitou encontrar-se comigo.

Fiz inversão de marcha e fui em direcção ao endereço que a Sophia me tinha dado...parecia que tinha 5 anos de informação para pôr em dia. Só esperava ter cabeça suficiente para os assimilar.
(Lua)

Ainda sentada no chão, ouvi o celular a tocar. Fosse quem fosse, eu não queria ouvir.

Doía-me a cabeça. Doía-me terrivelmente a cabeça. E, agora que estava mais calma, sentia que estava a ficar gelada. Com o calor que fazia lá fora, sabia que era apenas reacção ao ataque de choro. Apertei os braços á volta de mim própria, numa tentativa inútil de me aquecer um pouco.

A minha cabeça estava...vazia. Não conseguia sentir nada, pensar em nada... só aquele maldito celular que continuava a tocar...
Acabei por me levantar do chão para ir em busca de algo que me aquecesse. Estava a tremer de frio. Em direcção ao quarto, apanhei a minha bolsa para desligar o celular. Peguei nele ao mesmo tempo que ele dava sinal de mensagem. Por reflexo, carreguei para abrir.


“Estás bem? Sei que estiveste com o Arthur. Ele ligou. Está a caminho daqui. Preciso muito falar contigo. Liga-me. Soph”

Fechei os olhos com força e apertei o celular na mão. Não. Arthur outra vez não. Não já...

Hesitei por um momento, na dúvida se iria ligar ou não para a Sophia
.
(Arthur)

A Sophia abriu-me a porta, mas não tive direito a sorriso de boas vindas...

“Entra”

Ela tinha uma expressão preocupada...e eu não sabia sequer por onde começar a falar.

“Sophia, eu...”

Ela interrompeu-me praticamente antes de eu começar, nervosa.

“Antes de mais nada...disseste que estiveste com a Lua. Como é que ela está? Como é que a deixaste? Ela está bem?”

“Ela ficou...agitada.”

Foi a definição mais leve que consegui arranjar sobre o estado da Lua. Na verdade, ou era uma actriz ainda melhor do que eu pensava ou tinha ficado completamente descontrolada...

“Agitada?... O que queres dizer com agitada? Arthur...”, a voz dela era firme, mas ela parou para respirar fundo, “Define agitada.”

Abri os braços, sem saber como me explicar.

“Não te sei explicar, Sophia. Nós...discutimos. Se é que se pode chamar discussão ao que aconteceu!”, encolhi os ombros sem saber o que mais dizer, “Ela ficou nervosa, disse-me uma data de coisas que eu vim aqui para tentar esclarecer, chorou e pôs-me fora da porta.”

Olhou-me olhos nos olhos, como se estivesse a avaliar até que ponto eu estava a ser sincero.

Eu mantive o olhar, mostrando que não tinha nada a esconder, e ela pareceu finalmente acalmar-se um pouco...deixando-se cair no sofá.

“Vou acreditar que ela está bem...por agora.”, pareceu lembrar-se de repente que ainda não me tinha convidado a sentar e apontou-me o sofá, “Senta-te. E desculpa se fui...mal educada contigo. Estou a tentar ligar para a Lua desde que falei contigo e ela não atende...fiquei preocupada.”
Até eu estava preocupado. Mas de momento, não havia mais nada que eu pudesse fazer além de ouvir o outro lado da história...e o da Sophia era o mais próximo do da Lua que eu tinha no momento.

Só não sabia por onde começar a perguntar....

Olhei para ela e decidi que era melhor simplesmente pôr a questão que me estava a remoer desde que a Lua tinha começado a falar.

“Afinal, o que aconteceu ao certo há 5 anos quando eu me fui embora?”

A Sophia encostou-se para trás no sofá e fixou-me com ar sério, como se estivesse a avaliar-me.

“Não sabes?”, e dava para perceber pela voz dela que lhe era dificil acreditar nisso.

Abanei a cabeça.

“Não faço ideia. Tanto quanto eu sei, eu descobri o caso e a gravidez da Lua, discuti com ela e ela saiu da minha casa. Foi a última vez que a vi até há poucas semanas. Assinei um contrato com a emissora portuguesa no dia seguinte, demorei uma semana a resolver as questões essenciais e no fim desse tempo entrei num avião com destino a Lisboa. Umas duas semanas depois comecei a receber chamadas para comentar a noticia de que a Lua me tinha traído com o André, recusei falar com quem quer que fosse e parei de ler ou ouvir noticias relacionadas com o Brasil.”, olhei para ela de novo, tentando fazê-la compreender que estava a ser o mais sincero possível, “E isto é o maior desastre da minha vida em 100 palavras ou menos.”

Continuava a sentir-me a ser avaliado pela Sophia...não era dificil perceber que ela não sabia até que ponto acreditar em mim. E isso começava a fazer-me pensar que talvez houvesse mesmo um fundo de verdade nos aparentes delírios da Lua. Estremeci.

“Realmente...um belo resumo.”, disse ela, “Resumido até demais, dir-te-ia qualquer pessoa que ficou por cá...”

Foi a minha vez de me encostar para trás no sofá enquanto a olhava.

“Então conta-me o que diria qualquer pessoa que ficou por cá”
(Lua)

Sentia-me mais quente agora, depois do banho. Tinha tomado um comprimido para a dor de cabeça e sentia que começava a fazer efeito...a dor de cabeça começava a melhorar.

Enquanto voltava para o quarto lembrei-me outra vez da mensagem da Sophia. Voltei a pegar no celular para a ler mais uma vez.

Então o Arthur tinha-lhe telefonado. A esta hora, provavelmente já lá estaria... Tinha saído da minha casa directo para falar com a Sophia...porquê? O que poderia ele ter tanta urgência em falar com ela?

Olhei novamente para o celular e deixei-o sobre a cama. O que quer que fosse, eu pensaria nisso mais tarde. 
(Arthur)

Conseguia sentir a hesitação da Sophia. Dei-lhe tempo para organizar as ideias e, acima de tudo, para que se decidisse acerca de se podia ou não confiar em mim.

“Queres a versão pública dos factos ou a privada?”, acabou finalmente por me perguntar.

Encolhi novamente os ombros.

“Ambas, suponho.”

Ela assentiu levemente.

“A pública, que qualquer um te dará com mais ou menos detalhes sórdidos, é que tu desapareceste para Portugal de um momento para o outro e, uma semana depois, saíram fotos da Lua e do André em meia dúzia de revistas. Provavelmente as mesmas que tu viste”, disse, fazendo uma pausa para avaliar a minha reacção.

Limitei-me a acenar para que continuasse.

“Isso foi apenas o início. Nessa semana não se falou noutra coisa. Duas semanas depois saiu uma noticia sobre uma suposta gravidez e aborto da Lua numa clínica privada. Ao longo das semanas seguintes foram surgindo noticias de todo o tipo...homens que diziam que tinham estado com ela, antes e durante o vosso namoro, em actividades sexuais de todo o tipo que te possa ocorrer...pessoas dispostas a testemunhar que tinham lá estado quando a Lua fez o teste de gravidez ou o aborto...que a Lua os tinha enganado em diversos tipos de negócios... que a Lua tinha ficado a dever quantias exorbitantes e que se tinha esquivado a pagar simplesmente por ser uma estrela...”, ela parou novamente e abanou a cabeça, “Usa a tua imaginação. Acho que ao longo dos meses seguintes, o que quer que consigas imaginar...havia alguém disposto a jurar a pés juntos que estava lá quando a Lua fez ou disse.”
Ela remexeu-se um pouco no sofá, como se o assunto lhe fosse realmente incómodo.

Encolheu os ombros antes de continuar.

“Enfim...era escândalo atrás de escândalo...quando parecia que as coiasas iam finalmente acalmar, surgia uma nova história bombástica! E por muito que a Lua se esforçasse por controlar os danos e por descobrir quem estava por trás de tantas histórias mirabolantes...era impossível. Quem quer que fosse, escondeu as pistas muito bem.”, olhou-me com um ar estranho que eu não soube de todo decifrar.

“No fundo...isso foi só o início. Os problemas reais começaram um pouco mais tarde. De repente, a Lua era má para o negócio. O público estava contra ela, e já ninguém acorria para a ver. Os convites de trabalho na representação foram escasseando...até que praticamente desapareceram. Ela tentou virar-se para a música de novo, juntando-se á banda da Marisol... mas isso também não resultou... depois de se saber que ela tinha incorporado a banda, começaram a receber cada vez menos convites... Ela decidiu sair.”, fez uma nova pausa, para avaliar a minha reacção.

Eu estava enjoado. E tinha uma dúvida, mas só a ideia de a formular em voz alta era suficiente para me secar a boca.

“Ela não voltou para a Lágrima Flor?”, na verdade, o que eu queria saber era se ela tinha voltado para o André...mas isso eu não conseguia perguntar. Não ainda.

A Sophia abanou a cabeça.

“Depois do que o André fez...lógico que não!”

Fiquei confuso novamente, mas a Sophia não percebeu e voltou á narrativa.
“Entretanto ela tinha tentado processar diversas revistas...tentou provar que as fotos eram falsas, que as histórias eram falsas...nenhum dos processos seguiu em frente.”, ela parou outra vez e eu olhei para ela, como que a perguntar o porquê da pausa.

Mas ela continuou.

“Ela aguentou-se, com pequenas participações em peças e anúncios, essencialmente.”, abanou a cabeça novamente, “Passou de protagonista a figurante...e mesmo isso era dificil de conseguir. Continuou a tentar música a solo, mas foi simplesmente por pura teimosia e amor á arte. Nunca deu em nada. Em suma, depois de ser o principal assunto de todas as revistas, a Lua desapareceu do mundo do espectáculo. Ninguém a queria. Era uma indesejável a nível profissional e a nível pessoal Qualquer um que fosse flagrado com a Lua, arriscava-se a cair em desgraça nessa mesma semana.”

Olhou novamente para mim.

“E, de forma resumida, tens a versão pública dos últimos 5 anos.”

Sentia-me doente. Genuinamente doente. E se aquilo era verdade...abanei a cabeça. Eu sabia que era verdade. Encaixava perfeitamente no que o Mica e o Bernardo tinham dito, assim como nos boatos que tinha ouvido de passagem no estúdio.
Mas sabia que ainda tinha mais para ouvir.

“E a versão privada?”, perguntei finalmente.

A Sophia encostou-se de novo para trás no sofá e suspirou, olhando para o lado, como se também para ela fosse dificil reviver tudo aquilo.

“A privada é privada...não me cabe a mim contá-la.”, voltou a olhar para mim, “Fala com a Lua sobre isso. Pelo pouco que me contaste...há muita coisa que não sabes. Ou que alguém fez questão que tu não soubesses... Fala com ela.”

Hesitei. Na verdade, eu não queria perguntar á Lua. No momento, pelo menos, não me sentia capaz de a encarar.
“Disseste há pouco que depois do que o André fez á Lua, era obvio que ela não voltaria para a Lágrima Flor... o que é que ele lhe fez?”

Ela olhou para mim com ar de desilusão.

“Então tu não percebeste nada do que eu te contei...ainda acreditas que a ela te traiu...”

“Eu vi as provas, Sophia...é um bocado dificil não acreditar”

Ela mandou-me calar com um gesto de impaciência.

“Tu viste fotos, não provas. Se acreditas mesmo que ela te traiu, mesmo depois de tudo o que te contei, então se calhar é melhor mesmo não falares com a Lua sobre o assunto.”, levantou-se e eu percebi que era um gesto de despedida.

Levantei-me também e segui-a até á porta.

“Se ainda acreditas mais nas fotos e no papel que viste do que no que sentias pela Lua, não fales com ela sobre este assunto. Fica com a versão pública dos factos e põe uma pedra no assunto. E, por favor, deixa-a tentar fazer o mesmo.”

A porta já estava aberta, e ela estava simplesmente á espera que eu saísse.

“Obrigada de qualquer modo, Sophia. Esclareceste-me muitas coisas hoje.”

Fiz-lhe um breve aceno com a cabeça e dirigi-me ao elevador. Ela fechou a porta mesmo antes dele chegar.
(Lua)

A campainha tocou enquanto me dirigia para a cozinha. Olhei para a porta, indecisa sobre abri-la ou não. Se fosse o Arthur novamente...

A campainha soou mais uma vez. E uma batida familiar.

“Sou eu, Lua! Abre! Eu sei que estás em casa!”

Suspirei de alivio enquanto me dirigia para a porta. Soph.

“Oi”

Ela olhou-me dos pés á cabeça enquanto entrava e eu fechava a porta.

Limitei-me a olhar para ela com ar de interrogação...

Ela sorriu e fingiu limpar um pouco de suor da testa.

“UF! Estás inteira... Por momentos pensei em que estado é que me virias abrir a porta...”

Tive de sorrir um pouco pelo ar dramático...o que era, provavelmente a intenção dela. Saber disso aquecia-me o coração.

“O que achaste que tinha acontecido? Que o Arthur me tinha batido até se cansar e arrancado um pedaço?”, o meu tom era só levemente crítico pelo exagero, uma crítica amigável e um pouco brincalhona...mas estava carregado de carinho por ela, por eu saber que ela estava realmente preocupada.

“Não arrancou?...”, e o tom dela deixava muito mais subentendido.

Suspirei mais uma vez enquanto o sorriso me fugia dos lábios.

Calei-me.

“Não...desta vez não...”, voltei a dirigir-me á cozinha, sabendo que ela me seguirira, “Na verdade...”

“Na verdade...”, repetiu a Sophia, incentivando-me a continuar.

Encolhi os ombros, como se não significasse nada.

“Ia dizer que quando ele saiu daqui quase parecia que tinha sido eu quem lhe tinha batido...”, evitei olhar para a Sophia, mantendo-me deliberadamente ocupada.

Senti a Sophia encostar-se á bancada ao lado de onde eu preparava chá da forma mais lenta possível, para não ter de a olhar.
“Ele foi a minha casa.”

Eu esperei, sem dizer nada. Senti-a olhar para mim, tentando avaliar a minha reacção.

“Queria que eu lhe contasse o que tinha acontecido nos últimos 5 anos...aparentemente, a versão dele da história era bem mais curta do que a realidade...”

Afastei-me para procurar as canecas no armário. Sabia que ela ainda esperava uma reacção da minha parte.

“Engraçado”, acabei por dizer sem qualquer humor, “Deve ser o único que tem uma versão mais curta...na altura todos pareciam ter algo a acrescentar...só ele é que tira...”

A Sophia obrigou-me a encará-la.

“Lua...durante estes anos todos eu era capaz de jurar que sabíamos tudo sobre esta história e só não o conseguíamos provar...”, esperou um pouco antes de continuar, “Pela primeira vez, começo a duvidar...”

Desviei deliberadamente o olhar e afastei-me para verter o chá. Tinha medo que ela visse nos meus olhos aquilo que eu ainda não me sentia capaz de admitir...

“Também eu, Soph, também eu começo a duvidar de tudo...”, pensei com um certo medo das portas que essa dúvida poderia abrir em mim.

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