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terça-feira, 14 de agosto de 2012

[MINI-FIC] Nova Madrugada



.Título: Nova Madrugada

I.
Sentada na ponta da longa mesa cheia e barulhenta, não consigo evitar olhá-lo. O olhar a fugir insistententemente na direcção de onde fugi ao escolher o lugar. Pelo canto do olho a visão do cabelo escuro, das mãos que eu conheço tão bem entrelaçadas sobre a mesa. E o riso contido, o abanar de cabeça que faz sempre que ouve alguma coisa disparatada que o faz rir. A tentativa de se manter sério no meio da palhaçada habitual, a postura de quem pertence ao grupo mas não se sente confortável no centro das atenções.
Encostada na cadeira, nem me apercebo que desisti de ser discreta e o fito agora abertamente. Estou concentrada em cada gesto, em cada palavra. Sem perceber, apaguei todos os restantes elementos da cena que se desenrola á minha volta. Esqueci-me de fingir que ele não me interessa, que é apenas mais um colega. Esqueci-me, pela milionésima vez, que não é suposto sentir o coração a bater mais forte quando o olhar dele cruza o meu, que não é suposto sentir saudades de algo que eu própria deitei ao lixo, algo a que escolhi virar as costas.
Alguém me chama, agarrando-me o braço. Uma gargalhada, uma piada sobre a minha distracção. E eu sinto-me corar involuntariamente, sinto-me subitamente nua, demasiado exposta ao mundo. Sei que todos sabem, e ainda assim faço questão de fingir que não entendo as meias palavras, os risinhos e as cotoveladas. Armo-me dos meus melhores dotes de actriz e interpreto uma personagem para a qual eu própria improviso um guião todos os dias, a cada minuto que passo perto dele. Um guião onde não o amo, onde não o desejo com uma fome que me deixa tonta, que me apavora.

Ele olha-me finalmente, com os olhos castanhos recheados de emoções que não sou capaz de decifrar na totalidade, de emoções que simultâneamente quero e não consigo aceitar. E antes que eu me recomponha o olhar já desapareceu, a atenção dele desviada para o lado oposto. Prendo as mãos debaixo da mesa, cerrando silenciosamente os dentes na procura de uma coragem que desconheço ter, na esperança de que a máscara de insensível e desapaixonada desça mais uma vez sobre mim protegendo-me do mundo. Protegendo-me dele, do que ele me faz sentir. Protegendo-me de mim mesma.
Pego mecanicamente num dos doces sobre e mesa numa tentativa de me manter ocupada. Mastigo lentamente enquanto finjo uma concentração e interesse que estou longe de sentir na conversa que se desenrola ao meu lado. Controlo cada gesto meu, fiscalizo-me em cada célula, em cada músculo. Impeço-me de pensar, de sentir, de mostrar. Preparo-me em silêncio para a luta que travarei comigo própria dentro de menos de uma hora no centro do cenário. Preparo-me para o choque que sinto sempre que nos tocámos, sempre que respiramos o mesmo ar. Preparo-me, sabendo que é inútil, para não desabar nos braços dele ao primeiro roçar de lábios, ao primeiro sopro dele sobre a minha pele.
Vejo-o sorrir na direcção de outra mulher e o coração aperta-se, sangrando um pouco. As mãos apertam um pouco mais a cadeira e, mesmo sem querer, não consigo evitar remexer-me na cadeira subitamente desconfortável. Não creio, racionalmente, que ele se tenha envolvido com ela...ou com quem quer que seja. Não creio que o sorriso que lhe dá seja mais do que um simples sorriso, mais do que uma forma de comunicação não verbal que todos praticamos todos os dias. Não creio que seja nada que justifique os súbitos ciúmes que me dominam excepto pelo facto de saber que ele sorriria para mim se eu tivesse sido mais corajosa, se eu não o tivesse deixado virar as costas naquela manhã. Quero voltar a ter o sorriso dele na minha direcção, quero voltar a sentir sobre mim o olhar que me aquece num milésimo de segundo, quero voltar a ouvir o meu nome dito por ele naquele tom rouco que me faz perder a razão. Quero tudo aquilo que reneguei, de que abdiquei. Dele, quero tudo aquilo que jurei não voltar a querer de ninguém por um longo tempo. Quero mais uma noite, e outra depois dessa.
Com o olhar a fugir novamente para a ponta oposta da mesa digo para mim própria que não sou capaz de voltar atrás, de dizer que quero mais do que antes. O acordo era uma noite, um momento de cada vez. E por muito que na parte mais profunda de mim saiba que nunca cederei ao “para sempre”, um suspiro foge-me dos lábios enquanto peço a uma entidade na qual não acredito mais uma oportunidade, mais um momento, mais uma noite. Quero só mais uma noite.

II.
De olhos fechados, deixo a música tocar enquanto a cabeça se movimenta ritmicamente ao som da batida que se encaixa com o bater do coração. Deixo as notas correrem livres, limitando-me a aceitar que escorram sobre mim, que me lavem de todo o mundano e superficial que preenche os meus dias. Permito que o som se entranhe em mim aos poucos, preenchendo-me, completando-me, sarando-me. Da garganta começa levemente a sair um murmurio que se junta á sonoridade do quarto. Na mente memórias de outras músicas, de outros palcos. Saudades de outros sentimentos, de outros momentos, de outras vozes.
E de repente, quase que sem o sentir, sou já eu quem canta com a música explodindo-me nas veias e libertando-me, transportando-me para o meu mundo pessoal onde todo os sentidos se unem no objectivo único de formar o som perfeito, o ritmo vital. A letra ganhando vida, a minha história alterando-se e distorcendo-se para ser apenas uma fantasia poética. Ou é talvez a própria melodia que ganha vida e se molda ao que vivi e ao que sou, tornando-se mais minha e fundindo-me com ela em cada segundo...
E completamente mergulhada nas notas que agora correm velozmente por cada parte de mim, a imagem dele vem-me subitamente á cabeça, dando um novo sentido e profundidade á história de amor que canto e que alguém escreveu para mim sem o saber. A emoção dos momentos que passámos juntos oferecendo uma nova profundidade a uma história tão antiga quanto o mundo e que se reinventa sempre que duas pessoas se amam e magoam, sempre que um ser humano ama e vira as costas a tudo por medo.
Ainda sozinha no palco sem público, a voz solta-se e voa para longe, levando com ela parte do arrependimento e saudade, redimindo-me por momentos dos erros e falhanços. Cantando para a audiência invisivel que se estende apenas pela minha imaginação recordo a harmonia das vozes juntas, o calor da mão dele agarrando-me com força enquanto as notas vibravam entre nós, aproximando-nos mais do que parecia humanamente possível. Recordo a forma única como ele acompanhava a minha musica, como a transformava unicamente para mim. Recordo a emoção de cada palavra que escreveu sozinho e me ofereceu como o mais belo presente de Natal, embrulhada no sentimento que estava lá desde o primeiro minuto em que os olhares se cruzaram, desde o primeiro segundo. Recordo as palavras que descreviam a história que me recusei a aceitar como nossa mas que no fundo do meu coração se sobrepunham a tudo o que eu própria não conseguia traduzir. Recordo tudo enquanto a melodia continua a correr e eu me mantenho no meu pequeno mundo imaginário.


Completamente mergulhada no sentimento que simultâneamente me arrasa e me consola esqueço o tempo e local, esqueço a realidade e a ficção. O ensaio não é já um simples ensaio e eu não sou já o ser fraco e solitário que era antes da canção começar. Prolongo-a um momento mais enquanto a memória começa a trair-me trazendo de volta o olhar magoado e o leve apertar de lábios dele, a distância que magoa como uma faca afiada e a ausência que me abraça substituindo o calor do corpo sólido. Falho uma nota enquanto tropeço nos meus próprios desejos, nos meus próprios erros. Tropeço de novo quando o soluço fica preso na garganta e a melodia começa finalmente a esvair-se numa lentidão agoniante, num arrastar longo e lento como a dor que sinto agora.
Largo finalmente as últimas notas como se arrancasse uma parte de mim, lançando-a para longe numa tentativa de me reinventar e redescobrir a coragem e amor-próprio que perdi numa parte do caminho que me trouxe até ao agora. A respiração ofegante traduz o esforço de me transformar em ar e som, de pegar em tudo o que sou e o expulsar num ritmo que é dele e meu, que nos uniu e que agora nos afasta, que ainda me emociona e me seduz.
Abro finalmente os olhos e encaro apenas a parede do meu quarto de infância, onde uma foto com ele ainda me fita, corroendo o pouco auto-controlo que me resta. Enrolo o fio do microfone tão falso quanto a minha segurança e contenho uma vez mais as lágrimas que jurei não chorar pela decisão que tomei. Não terei mais uma noite com ele, não terei mais estrelas brilhantes até chegar a luz da manhã. Apenas uma escuridão longa e solitária que adia pesadamente o segundo em que a madrugada finalmente voltará a nascer.

III.

Sozinha na cama onde ele nunca esteve revolvo os cobertores, inquieta. Os olhos abertos na escuridão do quarto fixam memórias do passado recente, recordam o sorriso e a mágoa, a diversão e a tristeza, a paixão e a distância. Recordo o desejo e os suspiros, os beijos e os carinhos. Recordo e mantenho os olhos abertos e fixos, numa tentativa de adiar as lágrimas que vêm de algum lugar misterioso e profundo dentro de mim. Lágrimas de arrependimento e saudade. Lágrimas de medo, um medo que se arrasta e me acompanha desde a primeira vez que o coração bateu mais forte, desde a primeira vez que o beijo foi mais do que um simples saborear de algo novo, de alguém novo.

Aqui sozinha no escuro sinto-me realmente só, deixo finalmente cair todas as máscaras e recuso todas as defesas. Deixo que o sentimento borbulhe pelo peito e transborde pelos olhos, pelos soluços que desisto finalmente de conter. Ouço os meus próprios lamentos e abraço uma almofada inerte onde procuro em vão imaginar o cheiro dele, o toque dele. Desejo mais uma caricia no meu ombro pela manhã, mais uma gargalhada baixa no meu ouvido, mais uma mão leve a roçar-me os cabelos desarrumados. Aqui sozinha no escuro o coração bate ao som do nome dele, as mãos formigam com uma ânsia súbita e incontrolável de lhe tocar, de o abraçar. Nos lábios secos e ávidos o nome dele sai involuntariamente, um lamento ferido e doloroso, uma queixume e uma sentença. Condenei-me a mim própria por um crime que nunca aconteceu, antecipei a dor de uma perda que nunca chegou porque a que sinto agora sem ele é mil vezes pior, mil vezes maior.

Reviro-me uma vez mais na cama demasiado grande e aperto as mãos numa tentativa vã de retomar o controlo, a razão. Encolho-me em posição fetal e mordo o lábio numa busca por uma réstia de paz, de consolo. Um consolo que sei que não vai chegar a não ser nos braços dele, no beijo dele. Fecho os olhos com força e recordo o sabor agridoce do beijo de hoje, da batalha de sentimentos entre os personagens que era no fundo uma batalha dos nossos próprios sentimentos, da minha insegurança contra as certezas dele. Relembro a suavidade dos cabelos impecavelmente penteados entre os meus dedos, a mão forte com a medida exacta para me agarrar a cintura de forma possessiva. Relembro o desejo de que a cena fosse eterna e real, de que o cenário fosse novamente a cama onde acordei tantas manhãs ao lado dele, a cama de onde fugi como uma criança imatura, amedrontada.

A tremer, desisto de lutar contra a ansiedade e levanto-me num salto. O nervosismo domina-me, e eu não sei o que fazer para o controlar. A imobilidade apavora-me, e tudo o que consigo pensar é em tê-lo comigo neste momento, neste segundo exacto. Agarro o telemóvel pousado ao lado da cama e marco o numero que sei de côr. No ecrã o nome que me faz acalmar o coração e simultâneamente o acelera. O nome que não consigo parar de repetir no silêncio da noite que me rodeia, que me domina e apavora. A noite que se arrasta longa e lenta, numa amargura eterna em que a madrugada se recusa a despontar. O dedo hesitante sobre o “LIGAR” que se desenha no ecrã. Dentro de mim, a guerra entre o bom-senso e o inevitável. O desejo intenso de o sentir próximo, nem que seja por uma chamada que ele provavelmente não atenderá. E profundamente, sei que a atenderia. Sei que apesar de tudo ele me ouviria, ele me aceitaria. E essa certeza acelera ainda mais o musculo que me bate ritmicamente dentro do peito, agrava ainda mais a incerteza que sinto entre o certo e o desejo, entre o medo e a paixão.

Num impulso, agarro a roupa espalhada pelo quarto horas atrás e visto-me enquanto me esforço por evitar qualquer pensamento racional. Calço-me enquanto caminho em direcção á porta, as mãos tacteando no escuro as chaves e o telemóvel. A cabeça numa nuvem que eu prórpria criei e me esforço por não perder. O coração a bater a mil, a pele a formigar com a certeza que de que o que tenciono fazer é a última hipótese, a melhor ou a pior coisa que posso fazer, o último lançamento dos dados que me recuso a aceitar que sejam viciados. Nesta noite escura e lenta, o jogo acaba.

Atravessando as estradas vazias, carrego com força no acelerador para que o medo não me alcance, para me adiantar á razão. Fujo da incerteza que preenche o meu quarto e das lágrimas que eu própria provoquei. Acelero em busca do conforto que só ele me dá, da segurança com que os braços dele me recebem sempre que me aninho deles. Corro em direcção a mais uma noite, a mais um beijo. Corro por e para ele, porque sei que só isso terminará o feitiço e fará a madrugada nascer, só isso fará o meu coração voltar a um ritmo normal e a minha pele parar de verter saudade por cada poro. Só ele poderá ser o príncepe de uma Cinderela que fugiu pela manhã, deixando para trás a razão em lugar do sapato de cristal.


Páro finalmente em frente ao prédio alto e deixo cair a cabeça sobre o volante, sem força. Sinto-me como se não respirasse desde o momento em que decidi sair de casa, apesar de ouvir a minha própria respiração acelerada. Olho as janelas simétricas e alinhadas, todas como olhos fechados que me fazem sentir de novo toda a incerteza e loucura da viagem que fiz. A sua muda acusação, a sua crítica silenciosa e arrogante, que me faz sentir pequena e insignificante, louca e abandonada. Sozinha no carro subitamente abafado, penso em tudo o que disse e em tudo o que não fiz. Penso no que sonhei e no que realizei. Penso sobre pensar, e o sentimento de incerteza volta a invadir-me. Ele merece mais, merece melhor. Merece-me a mim numa vida diferente, com uma coragem diferente. Merece alguém que o faça rir e o acarinhe, que lhe dê segurança e o obrigue a arriscar. Merece o doce sabor da paz e a paixão desencadeada pela guerra. Merece alguém completo, alguém perfeitamente imperfeito.
Raivosa comigo própria, precipito-me para o exterior batendo a porta. Corro em direcção ás escadas e marco o código que me fervilha nos dedos e que protege a entrada dos meus melhores sonhos. Atravesso o átrio escuro e silencioso sem olhar para o lado, os olhos abertos e fixos numa loucura incontrolável. Os pés apressando-se pela escada, incapazes de esperar. E ao chegar á porta o dedo a parar sobre a campainha. A respiração suspensa enquanto nem eu própria sei se toquei. E com o medo a aproximar-se e a incerteza a galgar as escadas que acabei de subir num fôlego, carrego de novo, apavorada.
- Lua?... – a cara vermelha do sono, os olhos inchados e indecisos. E finalmente a salvo deixo-me cair contra o peito forte que me acolhe instintivamente, protegendo-me de todos os males e terrores do mundo. O cheiro que é só dele a invadir-me, a colar-se á minha pele, a preencher cada célula do meu ser. O beijo sôfrego, com uma mistura de alivio e ansiedade. A necessidade absoluta de o sentir colado a mim, de saber que ele é real, e não apenas mais uma alucinação numa noite demasiado longa.
- Quero mais uma noite – a voz aos soluços, e ainda assim nunca tive tanta certeza de nada. Os pensamentos atrapalham-se na mente, mas o sentimento é agora completamente claro. Agarro-o com força perante o movimento subtil de afastamento. Finco as unhas no braço nu, impedindo-o de se tornar numa nova versão de mim. – Quero mais uma noite. E amanhã vou querer uma mais. E outra depois dessa. Quero mais uma noite todos os dias, mais uma hora a cada segundo. Quero tudo.
E o resto das palavras a perderem-se no abraço apertado e desesperado, o sentimento a falar por si só na guerra que se desenrola nas nossas bocas e cujo único resultado será uma empate que nos obrigará a repetir a batalha. A porta fechando-se atrás de mim enquanto tropeçamos em direcção ao quarto. As mãos apertando, arranhando, prendendo, desejando. E ao cair novamente sobre a cama da qual fugi numa manhã que parece agora a anos-luz de distância, sei que estou finalmente onde deveria estar. Terei mais uma noite com ele. Uma noite eterna, cuja madrugada se renovará vezes e vezes sem conta sem extinguir o brilho que agora irradia entre nós. Mais uma noite. Mais uma vida.


FIM...

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