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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

[FIC] Mentiras e Segredos 7º e 8º Capitulo

Lembranças!!!!  



(Arthur)

Pela primeira vez desde que regressei ao Brasil, não consegui conciliar o sono. Passei a noite toda a andar de um lado para o outro nesta casa que só tem ecos de nada.

A Lua nunca esteve aqui. Fiz questão de mudar de apartamento quando voltei. Mas apesar de não existirem memórias físicas dela dentro destas quatro paredes, a minha cabeça está cheia delas. E eu não consigo simplesmente apagá-las, evitá-las.


“ – Não sei o que dizer, Arthur...
- Diz que sentes o mesmo que eu, Lua... que também não é só amizade para ti...
- Não, Arthur, não é só amizade...mas sabes que não vamos ter um minuto de paz a partir do momento em que ficarmos juntos. E isso dá-me medo...
- Medo de quê? Estamos juntos... amamo-nos...superamos o que quer que aconteça! E a verdade é que paz é algo que já não temos desde há meses...vamos para onde formos é notícia!
- Vai piorar se ficarmos juntos, Arthur...não imaginas o quanto pode piorar...”

“ - Não gosto dela, Arthur. Está demasiado habituada á fama, ao dinheiro...sabe deste meio muito mais do que tu...tenho medo que ela acabe por te magoar.
- Estás enganada acerca dela, Luisa. A Lua é super simples...e o que tem a ver o facto de ela saber mais deste meio do que eu?
- Chama-lhe pressentimento se quiseres, mas tem cuidado com ela...se essa história der errado, é provável que sejas tu a sair magoado...”


A Luisa tinha razão...e como sempre eu não lhe dei ouvidos. Enquanto tentava em vão que as horas passassem até ao amanhecer, pensei que dava tudo para voltar atrás e dar valor aos avisos da Luisa...

E mesmo enquanto pensava isso, sabia, lá no fundo, que uma parte de mim se negava a abdicar da Lua e do que vivi com ela naqueles meses. Mesmo sabendo que tinha sido tudo uma mentira, o certo é que tinha sido a mentira mais maravilhosa da minha vida...
(Lua)

Desta vez saí de casa antes da hora. Estava cansada de andar em casa de um lado para o outro enquanto esperava que as horas passassem e decidi que sair das quatro paredes seria melhor do que nada...mesmo que fosse para ir para o estúdio.

Sabia que ia encontrar o Arthur hoje outra vez, como é obvio. Enganar-me a mim própria e tentar esquecer isso simplesmente não funcionava. Ia encontrá-lo hoje, e depois, e depois, e depois...como é que eu iria sobreviver aos próximos meses da minha própria vida?!

“Um dia de cada vez, como fizeste até agora, Lua Maria. Um dia de cada vez...”

Parei o carro no estacionamento do estúdio e fiquei lá dentro por um bom bocado, ganhando coragem para sair. Encostei-me no banco e, fechando os olhos por um momento, dei a mim própria um tempo para recordar sem público o que um dia eu tinha sido...
“- Não Arthur! Aqui não! – ri, enquanto tentava em vão afastá-lo – Pode entrar alguém...e aí quem explica és tu!
- Não me interessa que entre o mundo inteiro! Já não aguento mais guardar só para mim que sou o homem mais feliz do mundo! Mas contento-me com um beijo...só um beijinho...pequenino...
Cedi com um sorriso...porque aqueles olhos brilhantes e apaixonados me faziam ceder sempre...e porque eu própria precisava de o sentir, de saber que era real.
Ele beijou-me suavemente, dando-me pequenos beijinhos pela cara enquanto eu tentava inutilmente fingir que não iria ceder e não sorrir...acariciou-me a nuca e puxou-me para mais perto dele, encostado á mesa do camarim...
Senti-me tremer de emoção (e porque não admitir, de excitação também) mesmo antes que a boca dele chegasse á minha. Aqueles carinhos com que ele me tentava sempre “convencer” derretiam-me...e ele sabia-o. O beijo foi longo e lento, enquanto ele corria as mãos pelo meu corpo, demorando-se um pouco mais na minha cintura e segurando-me de seguida a face com ambas as mãos enquanto se afastava o suficiente para me fitar nos olhos
- Amo-te, Lua. Nunca te esqueças disso.
Senti o coração rebentar de tanta emoção e inclinei-me de novo para ele, beijando-o enquanto tentava dizer-lhe, sem palavras, o quanto o amava também.”
(Arthur)

Vi-a mal saí do carro. Tinha estacionado não muito longe de mim...e eu percebi que não me tinha visto. Fiquei a olhá-la e, quase sem dar conta, fui chegando mais perto do carro dela.

Parei quando consegui finalmente vê-la com clareza. Tinha a cabeça encostada para trás no banco e as mãos no volante, com um ar de abandono e cansaço que me deixaram surpreso. Mas o que realmente me apertou o coração e me fez voltar a aproximar foram as lágrimas que lhe corriam pela face. Não soluçava, não fazia qualquer movimento que indicasse que estava consiciente sequer do sítio onde estava, parecendo completamente perdida no seu próprio mundo. Apenas aquele ar de derrota e as lágrimas a caírem-lhe suavemente pela face.

A Lua que eu conheci não chorava, não tinha expressões de derrota. A Lua que eu conheci era um vencedora, uma das pessoas mais alegres e confiantes que alguma vez conheci.

Ao aproximar-me do carro dela para bater ligeiramente no vidro, passou-me pela primeira vez pela cabeça a dúvida sobre o que teria realmente acontecido na vida da Lua Blanco nos últimos 5 anos...
(Lua)

Fui arrancada daquela memória tão doce repentinamente por um som que não identifiquei de imediato. Confusa, virei-me apenas quando tornaram a bater no vidro, percebendo finalmente a origem do barulho.

Talvez por ter estado a pensar nele, não foi um choque assim tão grande encontrá-lo ali parado, do lado de fora do meu carro. Era quase como se os meus pensamentos o tivessem conjurado, e em resposta...ali estava ele. Suspirei antes de descer o vidro. Se tínhamos de falar...e eu sabia que não poderia passar os proximos meses a trabalhar com ele sem trocar uma única palavra, realmente eu preferia que fosse a sós...

“Está tudo bem?”, a expressão parecia de genuína preocupação.

Forcei-me a pensar numa frase banal, que dissesse a qualquer um que me perguntasse o mesmo. Sabendo que não me ocorreria nada melhor, limitei-me a encolher os ombros...

“Já tive dias melhores.”

O olhar dele vagueou um pouco pela minha face, estudando-me com atenção e desviando-se finalmente para o lado.
(Arthur)

Eu não sabia o que dizer. Quando muito, tinha de admitir que ela tinha sido honesta. A famosa Lua Blanco não estava nos seus melhores dias. Mesmo sob a camada de maquilhagem dava para perceber a palidez e as olheiras, sinal de uma noite mal-dormida. Via-lhe os traços de cansaço e tensão nos cantos da boca e dos olhos, que tinham uma expressão de cansaço e resignação que não lhe conhecia anteriormente.

Não consegui continuar a encará-la. Principalmente porque sabia que tínhamos de falar sobre o acontecido no dia anterior. E tinha quase a certeza que seria impossivel fazê-lo sem voltar á discussão de 5 anos atrás.

“Lua...quanto a ontem...”, hesitei, não sabendo ao certo como continuar.

Senti-a suspirar e virei o olhar de novo para ela. Ela tina voltado a encostar a cabeça no banco e fixava o tecto do carro.
“Estou cansada Arthur. Estou demasiado cansada para jogar contigo ao que quer que seja que tenhas planeado quando voltaste e aceitaste um projecto no qual estou certa que sabias que ia participar.”, virou-se para mim e olhou para o meu rosto, sem no entanto me olhar nos olhos, “Sabes, e sabias com certeza quando o aceitaste, que eu não o faria se tivesse conhecimento do teu regresso com antecedência.”

Senti pela primeira vez um pouco de culpa, mas ela continuou, de olhos fixos no vazio á frente dela.

“Não o faria mas já está feito e agora é tarde demais para voltar atrás”, suspirou e olhou-me novamente, “Quando estivermos juntos...e estaremos juntos muitas vezes nos proximos meses, tentarei ser educada e...politicamente correcta contigo. Espero que faças um esforço para fazer o mesmo. O passado é passado, e já foi demasiado explorado e falado.”
Olhou novamente o vidro na frente dela enquanto acrescentava baixinho, como se fosse mais para ela do que para mim “A única coisa que quero agora é paz...só paz.”
(Lua)

A verdade é que me sentia completamente sem energia. Depois de uma noite inteira em que não consegui parar no mesmo sítio por meio minuto...parecia de repente que todo o cansaço do mundo me tinha caído sobre os ombros. Apetecia-me simplesmente fechar os olhos e ficar ali, sem ouvir nada, sem pensar em nada...sem sentir nada.

Não me importava o que o Arthur pensasse de mim naquele momento.

Pensando nisso, lembrei-me que ele ainda estava ali parado, ao lado meu carro...e que não tinha dito absolutamente nada desde que eu tinha falado.

Virei-me para ele tentando perceber a razão do silêncio. Pela quantidade de mudanças de humor e atitudes dele nas últimas 24h, eu nem sequer estava disposta a tentar adivinhar o que lhe ia na cabeça!...

Ele parecia...confuso. Como se de repente não se sentisse...encaixado. Olhava para baixo e ajeitava o relógio, com o tique nervoso que tão bem lhe conhecia...

Fixei-me na mão dele sobre o relógio, fazendo aquele gesto que me provocou um aperto no peito de tão familiar...
(Arthur)

Depois do discurso da Lua, eu não sabia mesmo o que dizer. Tinha a cabeça ás voltas, com tudo o que tinha acontecido desde o dia anterior.

Eu tinha voltado ao Brasil seguro de mim, seguro de que iria ter um frente-a-frente com a Lua. Tinha a certeza que ela me enfrentaria, que tentaria pôr-me fora do projecto ou ameaçar sair ela própria. Ou então que simplesmente me olharia com ar superior e me tentaria ignorar e desprezar. Até a hipótese de que ela tentasse fazer o mesmo jogo da última vez me tinha passado pela cabeça...conseguia imaginá-la a tentar retomar a nossa antiga...relação. Mas de todos os enredos que eu tinha imaginado, nenhum incluía uma Lua com ar abatido e resignado, como se a realidade se estivesse simplesmente a impôr na vida dela e ela não conseguisse fazer mais nada além de se deixar levar na corrente. Ao contrário do que tinha pensado...não estava, de forma alguma, preparado para a Lua.

Levantei de novo o olhar, e vi que ela fixava as minhas mãos. Segui o olhar dela e apercebi-me que estava a retorcer o relógio, como acabava por fazer sempre que me sentia nervoso.

Afastei as mãos e erguemos ambos o olhar.

“O passado é passado. Somos colegas, não precisamos ser amigos.”

Ela assentiu, sem deixar de me olhar nos olhos, e eu dei um passo em frente para me aproximar mais da janela aberta.

“Arthur! Lua!”, dei um salto para trás ao som inesperado de uma voz, sentindo no entanto que também ela se tinha assustado. Sem pensar, pus a mão no vidro meio aberto, num gesto instintivo de aproximação.
(Lua)

Assustei-me com a voz do Ivan. Por um momento, tinha estado mergulhada nos olhos do Arthur...por um momento apenas, foi como se o tempo não tivesse passado e estivéssemos de novo em perfeita sintonia.

Mas o momento passou, e era boa ideia eu voltar ao presente e esquecer aquele momento.

“Chegaram cedo. E...juntos?...”, a vaga interrogação do Ivan tirou-me qualquer dúvida que eu pudesse ter acerca de o mundo ter esquecido o escândalo.

Suspirei e deixei para o Arthur a tarefa de lhe responder, enquanto pegava na minha bolsa e fechava o vidro, saindo do carro.
Fomos andando os três em direcção ao estúdio, e eu sentia-me demasiado cansada para tentar sequer acompanhar a conversa entre o Arthur e o Ivan, limitando-me a breves acenos e a uns quantos “hmm hmm”.

Enquanto cruzava a porta do estúdio, ligeiramente atrás deles, não pude evitar um breve sorriso...pelo menos por 5min eu e o Arthur estávamos a conseguir comportar-nos. Veríamos por quanto tempo...
(Arthur)

Depois daquele encontro á chegada, praticamente não tornei a ver a Lua o resto da manhã, cada um de nós ocupado em diferentes reuniões. Silenciosamente, dei graças por isso. Um abalo emocional daqueles por dia é mais do que suficiente!

No entanto, cruzei-me com o Bernardo na prova de guarda-roupa.

“Arthur! Bom rever-te! Pensei que já te tivesses esquecido do nosso Brasil”, disse cumprimentando-me com um sorriso brincalhão.

“Qual esquecer! Fui só conhecer um pouco do mundo do outro lado do Oceano”, brinquei, “Mas e que tal as coisas por aqui? Nestes anos não tenho estado muito informado acerca do pessoal daqui...que é feito de toda a gente?”

“Tudo mais ou menos na mesma, suponho. Do pessoal de rebelde quase todos continuamos as carreiras, de uma forma ou de outra. A Rayana, a Sophia e a Carla também fazem parte deste novo elenco. Ouvi rumores sobre o Mica entrar também, mas a verdade é que não o vi na reunião ontem, nem se falou nisso...”

Fiquei feliz por saber que pelo menos aparentemente, todos tínhamos tido sucesso.

“E a Mel e Chay, por onde andam? Não me digas que largaram os ecrans e ficaram pela música...”, disse a rir. Sabia que ambos tinham o sonho de conciliar ambas as coisas, mas também sabia que não era fácil.

“Não...acabaram há pouco um programa, não sei qual os proximos planos deles. Ninguém ficou só pela música. Tirando a Lua, claro! Foi uma pena ela ter-se afastado de tudo depois de...”, parou, como se só nesse momento se lembrasse da pessoa com quem estava a falar, corrigindo-se logo de seguida “Foi uma perda para os ecrans que ela decidisse fazer uma pausa, mas sem dúvida que os palcos saíram a ganhar!”

Sorri, fingindo que não tinha percebido a correcção e deixei que ele desviasse o assunto para coisas menos complexas enquanto terminávamos a prova e nos separávamos para reuniões diferentes.
(Lua)

O Ivan tinha ido literalmente fazer-me uma espera á saída da minha prova de guarda-roupa. Apesar do sorriso estampado no rosto, algo me disse que eu não ia gostar do que ele tinha para me dizer.

“Lua...então, que tal está a ser o regresso ao estúdio?”, perguntou-me dando-me o braço e encaminhando-me pelo corredor.
Olhei para ele surpreendida com tanta simpatia...e o meu medo acerca dos motivos dela aumentou mais um pouco.

“Sem dúvida, diferente do que eu esperava!”, parei de andar para o fixar de frente, “Porque não me disseste, Ivan? Sabias que o Arthur estava de regresso...e que estava de regresso exactamente para este estúdio, para esta novela...”

Ele cruzou os braços e olhou-me pensativo, como se estivesse a medir o que me podia ou não dizer. Odeio quando fazem isso. Sei que, independentemente do que me diga, não vai ser a verdade toda.

“Sim, Lua, eu sabia. Aliás...vais odiar-me por isto, mas foi sugestão minha convidar-vos aos dois para contracenar novamente...”, levantou a mão, para me impedir de falar, “Eu sei...tu não irias aceitar se soubesses. Mas a verdade é que vocês são fantásticos juntos. Ou pelo menos eram. E eu preciso disso de volta numa novela nossa. Preciso da vossa química...e, porque não admiti-lo, da publicidade que vocês vão dar ao estúdio.”

Senti-me sufucar de raiva. Então era isso. A publicidade. O dinheiro. A Soph tinha razão...mal se soubesse que Lua Blanco e Arthur Aguiar iam fazer par novamente numa novela, a publicidade estaria garantida. Gratuitamente.

Senti-me genuinamente nauseada com a situação. Parecia que tudo voltava ao mesmo. Dinheiro. Fama. Oportunidades. 
“O Arthur sabia quem ia contracenar com ele?”, perguntei. Incrível como a minha voz soava tão desligada de tudo. Tinha certeza que ele sabia sim...mas precisava de ouvir a confirmação da boca do Ivan.

“Ele só aceitou o papel quando eu lhe garanti que eras tu quem ia fazer a Raquel...”

Limitei-me a acenar com a cabeça...no fundo, não era uma surpresa, pois não? Mas nem por isso conseguia afastar aquele sabor amargo na boca.

“Na verdade, eu vim buscar-te porque preciso de falar com os dois. Pedir-vos uma coisa”, e o tom dele era de preocupação, como se não tivesse certeza do resultado de tal pedido.

“Pedir?”, perguntei cinicamente, “És o chefe, Ivan! Tu mandas...e aqui os bonecos só têm de executar as ordens!”

Eu gostava do Ivan. Gostava mesmo. Tinha sido um optimo professor e companheiro quando gravamos Rebelde. Sempre o tinha admirado, como pessoa e como profissional. Mas neste momento, admiração não era o primeiro sentimento que me ocorria. Tinha jogado sujo, tinha utilizado um truque muito baixo para que a sua novela tivesse sucesso...e tinha-me usado sem pensar no que isso significaria para mim. Não, pensei, admiração não era o que eu sentia naquele momento.

Acompanhei-o até a sala onde o Arthur discutia com o técnico de imagem. Neste momento, mais do que nunca, apetecia-me mandar todos os que se relacionassem com o estúdio e com a novela em particular, para o inferno.

Senti o olhar do Arthur sobre mim, como que a tentar perceber o porquê da minha presença e do Ivan ali. Limitei-me a encolher levemente os ombros e a ignorá-lo. Se pudesse escolher quem enviar para o inferno primeiro...ele continuava no topo na lista.

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